Dr.Robert Reid Kalley

A primeira sociedade bíblica, a Sociedade Bíblica Britânica ( S.B.B.E. ), foi fundada em 1804, visando a distribuição das Escrituras em todo o mundo. Em 1821 a S.B.B.E. Enviou 100 Bíblias e 700 Novos Testamentos em português e espanhol para a América do Sul. Entre 1825 e 1830 , um Edmund temple já distribuída muitos exemplares das Escrituras em suas viagens pelo Brasil afora:
Em Pernambuco e Rio... o espírito de uma nova época acordara, e as mentes dos homens estavam começando a se libertar do jugo das tradições medievais, e da escravidão eclesiásticas. A distribuição informal das Escrituras, que durante muitos anos tinha sido o único meio de acesso da Sociedade ( Bíblica ), estava produzindo seus frutos. É impossível dizer até onde estes volumes penetraram, e o número de almas trazidas à luz da verdade... Em 1822, 1400 Testamentos e 676 Bíblias em português chegaram em Pernambuco... E é mister lembrar que a Sociedade Bíblica Americana [fundada 1816] também havia assumido estas regiões enormes, como sua parcela na obra de esclarecimento e educação.
Que existia um desejo gereralizado para com a palavra da Vida não havia dúvida. Em Pernambuco as Bíblias foram admitidas isentas de tarifas na alfândega e distribuídas a 'multidões de pretendentes.'
Já em 1855, Kalley também percebeu tal "desejo generalizado para com a palavra da Vida", pois, enquanto o navio no qual tinha viajado ao Brasil esteve ancorado no porto de Recife, o missionário escocês, conforme registro em seu jornal pessoal,connheceu
um juiz do Estado da Bahia, que é também deputado, inteligente,desejoso de ver homens inteligentes se estabelecendo no país dele. Ele não rejeita a verdade religiosa, nem escarnece da mesma... O Presidente de
Paraíba embarcou em Pernambuco. Com sua esposa e filho, ele ia ao Rio de Janeiro para a sessão parlamentar. Eram amigos de um jovem, doente, mas ligado à Embaixada Brasileira em Viena... O tio deste é amigo do imperador,sua mãe é a Baronesa de Jacutinga, e sua família, assim nos disseram, é uma das mais importantes no Rio. Pode ser que Deus irá abrir um caminho para nós por estes meios.
Mas isto ainda era um sonho. Em meados do século passado os únicos protestantes no Recife eram uns quatrocentos ingleses, muitos dos quais trabalhavam na fundição d'Aurora, "uma possante indústria ", propriedade da firma inglesa Harrington and Starr que, em 1836, construiu um completo maquinismo a vapor, talvez o primeiro no Brasil. Junto à fundição, na Rua Visconde de Itaparica, no.78 e 82, os ingleses construíram sua igreja anglicana (episcopal), Holy Trinity Church, em 1838. Essa igreja fez esquina com a Rua Formosa (hoje a av.Conde da Boa Vista ) e a Rua da Aurora - atualmente, o Cinema São Luiz ocpa o espaço. Boa parte da comunidade inglesa frequentava a igreja, e os cultos eram realizados em inglês. O pastor metodista norte-amerricano,Daniel Parish Kidder, visitou Perambuco entre 1835 e 1840 e comentou o estilo moderno da capela anglicana. Ele também visitou seu pastor, o Rev. Austin, que morava com sua família em Manguinho, Beberibe.
Em abril de 1893, o missionário M'Call realatou como havia retornado do sepultamento de um pastor (inglês) dessa igreja anglicana: "Morreu hoje pela manhã de febre amarela. Tem estado aqui somente alguns meses." Em tais circunstâncias, não-episcopais foram convidados a assumir a igreja: como no caso de James Fanstone e W.B.Forsyth, sobre quem falaremos mais adiante.
Fanstone relatou que, em julho de 1893, ele "foi convidado a dirigir o culto semanal na igreja episcopal, e, na ausência do Cônsul britânico, a dirigir cerimônias fúnebres de súditos britânicos."
Mas, ainda na primeira metade do século passado, nada havia de culto protestante em português, embora a colportagem continuasse. Em1859 Kalley conversou com um vendedor de
Bíblias, chamado Schroeder, que lhe contou como chegara em Pernambuco vinte anos antes, isto é, em 1839. Após ter trabalhado durante três anos como sapateiro (para se manter), Shroeder virou marinheiro, e, tendo viajado durante um ano, voltou a Pernambuco. Finalmente, temendo a morte às mãos de inimigos, ele se escondeu, antes de fugir para o Rio de Janeiro. Um outro colportor,Richard Corfield, saiu de Liverpool, Inglaterra, no final de 1856 e passou dois anos viajando pela América do Sul como representante da S.B.B.E. - e visitou Pernambuco.
Este quadro insatisfatório de visitas esporádicas comoçou a se reverter somente a parti da visão evangelística do médico escocês,Dr.Robert Reid Kalley, um missionário independente, de fortes convicções congregacionalistas que tinha começado sua carreira missionária em 1838 na Ilha da Madeira onde foi duramente perseguido pela Igreja Católica Romana.
Após curto período como pastor de crentes madeirenses refugiados em Illinois, América do Norte, Kalley chegou ao Brasil em maio de 1855, acompanhado por sua esposa Sarah Poulton Kalley evangelizava, dando ênfase à pregação a brasileiros. Nessa tarefa ele recebeu a ajuda de alguns daqueles madeirenses a quem ele havia ministrado na América do Norte e, aos poucos, surgiu uma pequena igreja protestante na cidade do Rio de Janeiro: a igreja Evangélica Fluminense (I.E.F.), organizada em 11 julho de 1858, a primeira igreja evangélica com cultos em
língua portuguesa no Brasil.
Em meio a muitas atividades e dificuldades na cidade do Rio de Janeiro, Kalley persistiu com sua visão evangelística, aproveitando bem os menbros da nova igreja. E há informes de que um desses, Antônio Marinho da Silva, vendia Bíblias aos ingleses em Pernambuco, enquanto colportor da S.B.B.E., à qual ele se filiara em 1861. Em junho de 1864 o colportor Richard Holden (que também cooperou com a I.E.F. por um período) entrou-se com Marinho a bordo de um navio que ia para o Recife, onde Marinho devia vender as Escrituras. O seguinte relatório referente ao ano de 1866 foi enviado à S.B.B.E.:
Nestes últimos seis meses, o colportor Antônio Marinho da Silva, Pernambuco, tem vendido 156 Bíblias e 326 Testamentos,um total de 482 volumes. Silva tem trabalhado com perseverança, exceto durante uns dias quando ele ficou parado devido a uma inflamação crônica do joelho. Ele tem problemas com isso. Como no caso de seu colega, de Souza, ele tem enfrentado muita oposição nestes últimos dias, pois o Vigário-Geral tem feito tudo para impedir seu trabalho.
O colportor João A. de Souza, Pernambucano, tem vendido 77 Bíblias e 253 Testamentos, um total de 330 volumes. Eu [ Holden] enviei de Souza a Prenambuco em agosto para cooperar com da Silva, e tenho motivo para crer que foi do SENHOR. Ele tem sido bem-sucedido desde sua chegada, o que mostra que há espaço para os dois trabalharem.
Conforme os arquivos da S.B.B.E., num período de seis meses em 1867,
da Silva vendeu 52 Bíblias e 249 Testamentos... e deu 1 Bíblia e 29 Testamentos. Foi-me uma supresa agradável constatar que ele tem distribuído mais do que neste período do ano passado eu jamais esperava isso, dadas as circunstâncias atuais.
Sem dúvida, eram dias difíceis para a divulgação da Bíblia, mas, mesmo assim, a observação de Holden em carta escrita para Kalley - "aqui em Pernambuco... não se encontra pessoa alguma que tenha gosto pelas coisas de Deus, de sorte que é muito díficil persuadir alguém a comprar a Bíblia" - é um pouco exagerada.
Mas os verdadeiros, naturalmente, não moravam no Nordeste. Iam e vinham. Tal situação mudou com a chegada de um outro membro da igreja missionária, a I.E.F., o madeirense Manoel José da Silva Viana .
Viana visitou Pernambuco pela primeira vez em 1868, e passou seis meses na região. No ano seguinte ele retornou, e, no dizer de Vicente Araújo, "vendia muitos volumes das Escrituras Sagradas... Andava por fora, pelo interior... em Garanhuns, Canhotinho, Limoeiro, Paudalho, Nazaré, Jaboatão e Alagoas".
Viana retornou a região em 1871 e, apesar de não dispor de muito tempo para discipular o pequeno grupo de crentes que já existia, fundou uma congregação protestante ao Largo do Pilar, número 3, perto das ruínas da igreja do Pilar e da estação do Brum. O grupo se reunia na casa bem simples do empalhador de cadeiras, Valdivino, onde se fazia somente uma leitura bíblica- aproveitando o fato de que alguns dos interessados e dos crentes moravam perto, João de Deus e José Cavaleiros, por exemplo, residindo a rua da Guia, 44, por vezes chamada a Rua da Restauração.